sábado, 28 de novembro de 2015

O Senhor da Guerra


Por Marcelo Pereira


(Cena 1): Tragédia em Paris. Terroristas matam muitas pessoas em nome de sua crença particular. Mídia e celebridades pedem para que pessoas solidárias com as vítimas orem por elas. Um telespectador decide orar pelas vítimas.
- Importante! Vou orar agora mesmo! Sei que não vai trazer ninguém de volta a vida, mas vai servir como conforto. Vamos lá. Meu Deus...
- Opa! Alguém falou meu nome?
- Deus, você aqui?
- Em pessoa, quer dizer, em divindade. O que você quer?
- Puxa Deus, estou emocionado. Iniciei uma oração e o senhor logo aparece. Sinal de que vai atender meu pedido!
- Não. Já atendi o dos terroristas. Eles oraram primeiro.
- Como assim, Deus? Logo o senhor, bondade pura?!!!
- Quem disse que eu sou essa bondade toda?
- Ora, Deus, todo mundo! Na minha igreja todos definem o senhor como a bondade perfeita.
- Você não leu a Bíblia toda...
- Li sim, Deus, como nã... Ou será mesmo que eu não li toda? O líder de minha igreja fala todos os dias sobre ela. Acho que ele pelo menos leu tudo e transmite aos seus seguidores...
- Tsc, tsc, não sabe nadinha, inocente...
- O que o senhor está querendo dizer com isso?
- Não sabia que tenho meus momentos de fúria e que sou conhecido como o Senhor dos Exércitos? Guerras foram e são feitas usando o meu sagrado nome?
- Senhos dos Exércitos... É, eu ouvi falar deste termo...
- Vocês mesmos vestem aquela roupa ridícula de camuflagem com os dizeres "Soldado de Deus" grafado com letras militares nela!
- É mesmo!
-Vocês mesmos vivem dizendo que eu sou o único que pode decidir quando as pessoas podem morrer. O que significa que sou o único a ter permissão para matar. E matei muito!
- É mesmo!
- Então porque você estranha o fato de eu ter atendido às orações dos terroristas? Tem horas que quero aprontar das minhas também. Quando estou de saco cheio, vou lá e pá! Mato mesmo!
- Mas e as vítimas? Você não ama a todos? 
- Ingênuo! Ninguém morre! Há vida do outro lado, sabia? Só acabo com os corpos! Você acorda do outro lado com cara de tacho, sem saber onde está e tudo fica tranquilis, tranquilis!
- Agora sou eu que não estou entendendo nada. 
- Tolos, vocês, religiosos nunca me entendem! Me veneram mas nunca me entendem! Os ateus não acreditam em mim, mas pelo jeito são os únicos que entenderam as minhas propostas...