terça-feira, 20 de maio de 2014

Pesca de Traíras

Por Marcelo Pereira 

Desde criança fui orientado a não confiar em ninguém. Cérebros são armários muito bem fechados e onde apenas os próprios donos tem acesso a eles. Mesmo que as pessoas queiram expor o que está dentro deles, nem sempre o que é exposto é na verdade seu conteúdo. De qualquer forma, o que está no cérebro de cada um é um patrimônio a ser preservado.

Expôr um pensamento tem tudo a ver com a necessidade de sobrevivência. Dependendo do que é exposto, podemos ganhar benefícios ou amargar sérios prejuízos. Essa necessidade de preservar a integridade e os interesses particulares que faz com que as pessoas escolham que ideia expor em cada situação. E muitas vezes o que é exposto não é o que existe de fato.

Vivo rodeado de pessoas com que não consigo confiar plenamente. Todos os seres humanos mentem, sem exceção. Eu mesmo menti muito. E ainda minto, quando necessário, embora deteste mentir. Esta postagem inclusive está mostrando uma verdade triste que o bom senso social deveria esconder. Em muitos casos falar a verdade é um sério risco, pois mentiras leves (e alguns casos, as não leves) protegem. E a verdade desta postagem poderá bagunçar o cenário.

Não tenho muitos amigos de verdade. Mesmo amigos mais chegados tem sérias divergências comigo. Isso se dá pelo fato de que os brasileiros gostam de defender uma ideia em que acredita por muito tempo. A medida que o tempo passa, um ponto de vista, mesmo errado, vai se sedimentando e permanecendo por muito tempo, vira "patrimônio" e o seu dono luta com unhas e dentes para mantê-lo. Em muitos casos o seu detentor prefere perder a vida do que mudar o seu ponto de vista equivocado.

Vivo rodeado de gente teimosa e com capacidade de trair. Já fui traído por vários tipos de pessoas e das mais variadas formas. Gente que vive me elogiando, finge concordar com meu ponto de vista, mais tarde se revela um discordante de minhas ideias. E olha que defendo minhas ideias com mais base na lógica do que em interesses pessoais. Mas lógica nunca foi o forte dos brasileiros, que preferem mesmo é seguir a maioria, o que parece mais seguro. Pelo menos para os outros.

Ainda vejo muita gente assim, que prefere seguir uma maioria de equivocados do que ouvir meus conselhos lógicos. Seguir a maioria das pessoas e instituições e pessoas prestigiadas é mais seguro porque são elas que consagram as ideias. É que se chama de "senso comum" , um ponto de vista defendido coletivamente e que se transforma numa regra informal a ser seguida com bastante rigor. Contestar o senso comum isola o contestador, que perde direitos essenciais que só podem ser conseguidos coletivamente, ou seja, agradando as outras pessoas.

E por isso mesmo que um repertório de valores defendidos coletivamente são difíceis de derrubar. os hábitos sociais só mudam quando muda o senso comum. Não adianta três, quatro, cem mil pessoas tentarem mudar a ideia. Ela só muda de fato se no mínimo 90% das pessoas mudarem. Enquanto esses 90% continuarem com seus valores equivocados, a sociedade com um todo nunca muda.

Mesmo havendo uma contestação por meio de redes sociais desses valores errados, fora desas redes, esses valores continuam fortes e garantindo o poder de muito peixe grande. Claro que é muito mais seguro estar do lado do peixe grande, por mais desonesto que ele seja, pois o peixe grande garante o alimento (mesmo escasso) dos peixinhos pequenos que andam ao seu lado. 

Muita gente até pode fingir que defende ideias avançadas, pontos de vista mais lógicos, diante de amigos nas redes sociais. Mas essa mesma gente sabe muito bem que nadar contra a maré é sempre mais arriscado. Seguir a correnteza parece mais seguro e fácil, mesmo que no final ela acabe em um letal despenhadeiro. Mas como exige menos esforço seguir a correnteza, vai se seguindo.

Por isso vejo que não existe brasileiro 100% progressista. Aquele cara que por exemplo, em política pode ser avançado, em cultura pode ser retrógrado; uma pessoa que pareça mais lógica em um determinado assunto, pode ser bem imbecil em outro. E assim, fica quase impossível manter uma concórdia plena.

Sei que a maioria esmagadora dos brasileiros monta seu repertório de convicções por base nas crenças e não na lógica. Usar a lógica existe esforço e a negação de certos prazeres fúteis (zonas de conforto). Legal mesmo para essa gente é continuar com suas confortáveis convicções que embora gerem, mesmo indiretamente, danos coletivos, dá prazer e bem estar aos que as defendem.

Por isso mesmo eu me sinto traído em muitas situações. Gente que finge concordar comigo, com o interesse em manter a minha amizade, na verdade prefere defender o senso comum, arraigado e já consagrado e protegido por autoridades, celebridades e gente influente, formadora de opinião. Como eu não sou formador de opinião, nas horas críticas, ninguém quer ficar do meu lado.

Estar do lado dos peixes bem grandes é o que interessa, nem que seja necessário que cada brasileiro traia seus amigos em prol da sobrevivência social de cada um. Como traíras, lindos peixes pequenos que escondem ferozes dentes que podem arrancar pedaços, na hora mais surpreendente.

Vivo pescando traíras. Mas sempre acabo comido por elas.

quinta-feira, 15 de maio de 2014

Se eu fosse egoísta, eu seria feliz

Por Marcelo Pereira

Ando pensando muito a respeito. Eu deveria ser egoísta. Deveria pensar mais em mim e esquecer os outros. Sofro muito em tentar querer um mundo melhor, mas olho ao redor e vejo que nada caminha para as melhorias. Tudo piora. TUDO mesmo.

Se eu fosse mais egoísta, entenderia que no fundo, ninguém quer melhorias. Todos se contentam com paliativos. Ficam felizes em ver líderes gananciosos tomando para si o que deveria ser da coletividade. E líderes felizes, pois em seu egoísmo, além de não terem que se esforçar para melhoras as coisas ao redor, acumulam bens e mais bens que além de satisfazer os interesses particulares, lhes dão poder de domínio e persuasão.

Perco muito tempo de minha vida  desejando um mundo melhor. Me estresso por causa disso. Não tenho meios para lutar de fato para acabar com os problemas, embora eu saiba como. Mas quem tem os meios para mudar o sistema, não tem interesse ou não sabe como. E no final tudo fica na mesma.

Se eu fosse egoísta eu poderia me isolar de tudo. Já que não posso melhorar o mundo como um todo, melhoro o meu "mundo". Como uma criança que, cansada das brigas familiares (cada vez mais comuns, não é?) se fecha no quarto e com seu brinquedos tenta construir um mundo que lhe satisfizesse.

Pesquisas sempre mostraram que egoístas são mais felizes. Altruísmo gera preocupação. Querer que os outros melhorem sem ter meios para fazer com que os outros melhorem, estressa demais. Chega a levar a loucura.

Claro que eu preferia ser altruísta. Mas descobri que não dá para ser altruísta sozinho. legal seria que todos nós uníssemos com o objetivo de melhorar o sistema. Mas ninguém se une. Quando aparece a oportunidade de acabar com um problema, todos fogem amedrontados, como se esse problema fosse um monstro gigantesco e muito forte. Complicado.

Já que minha ação é inútil perante os problemas que parecem muito maiores que minha capacidade de ação. Vou tentar ser egoísta. Difícil, pois o altruísmo é sinal de evolução e voltar ao egoísmo seria um retrocesso. Mas não dá para ser altruísta quando você sabe que suas mãos estão muito bem amarradas para ser utilizadas em qualquer ação.

Mas não quero o altruísmo paliativo. Este todos já fazem e não tem mudado nada. Não te melhorado a vida de ninguém de modo significativo.

Então, me trancarei no mais silencioso egoísmo. Até que um dia alguém com mais poder e recursos possa me chamar para iniciar atitudes que possam realmente acabar com os problemas. Aí sim, terei o prazer  de conhecer uma nova forma de altruísmo que não seja estressante. Assim espero.