sexta-feira, 26 de abril de 2013

Uma virgula

Por Marcelo Pereira

1° DIA: Júlio andava na rua em um sábado para comprar pão na esquina quando pisa em uma casca de banana e escorrega. Bate a cabeça no chão duro da calçada e fica desacordado. Ao ser levado para o hospital por amigos e familiares, o médico declara que ele entrou em coma profundo.

2° DIA: As crianças ficam desoladas por tédio. Costumavam sair com o pai delas para se divertir na praça. A mãe, desolada ficou só chorando, sem vontade de sair. Como os amiguinhos da vizinhança estavam todos na rua, os filhos de Júlio tiveram que fica buchudos mesmo, em casa.

3° DIA: O chefe não gostou nada da história. Achou que era desculpa para faltar, pois naquele dia uma reunião inadiável iria acontecer e Júlio era peça importante da mesma. Muitas das decisões dependiam dele. O chefe achou que Júlio estava blefando. Resolveu telefonar para os familiares que garantiram a veracidade do fato e prometeram provar. Aborrecido, o chefe mandou adiar a reunião e aguardar a resposta.

1° SEMANA: Após falar com familiares, o chefe, mesmo admitindo a verdade, resolveu afastá-lo da empresa. Não demitiu, mas colocou em cargo subalterno e nomeou outro para o lugar dele. Justificou aos familiares dizendo que a empresa não poderia esperar para as decisões importantes do cargo dele. familiares prometeram recorrer.

2° SEMANA: Renato, o ex-namorado que a esposa de Júlio tinha antes do casamento se mudou para a vizinhança. Ele havia se divorciado e se mudou para esquecê-la e tudo que aconteceu no conturbado casamento. Não sabia que a ex-namorada morava na área, embora a esposa de Júlio tivesse sido informada da chegada de seu ex-namorado. Júlio é que não ia gostar nada disso.

3° SEMANA: O chefe de Júlio está satisfeitíssimo. O cara que substituiu Júlio está realizando o serviço com uma eficiência bem maior do que antes. A reunião foi decidida com rapidez e a empresa não para de aumentar seus lucros e melhorar a qualidade de seu serviço. Rebaixado, Júlio não sabe o que lhe espera.

1° MÊS: Renato finalmente descobre que o novo bairro onde começara a morar era onde a sua ex-namorada mora. Feliz, já que não sabia que ela tinha se casado com Júlio, que ele não conhecia, logo resolveu pensar em um plano para conquistá-la.

2° MÊS: Renato mantém contato com a esposa de Júlio há duas semanas. Ela parece animada. Não falou a ele sobre o seu marido e muito menos que havia casado. Se limitaram a falar sobre assuntos do passado. Pelo jeito a chama pode voltar a acender.

3° MÊS: Os filhos de Júlio foram aconselhados com a mãe a morar com o tios. Assim, além de tirar os fedelhos do tédio, a esposa de Júlio teria maior liberdade para conversar mais com Renato.

MEIO ANO DEPOIS: Graças ao funcionário que substituiu Júlio, a empresa se tornou a melhor do país e uma das melhores do mundo. Os lucros crescem aos borbotões. Isso favoreceu uma aumento drástico no salário de todos. Até mesmo o mais raso faxineiro tem agora uma vida de rei. O tal funcionário foi promovido a vice-presidente. O que Júlio havia perdido!

UM ANO DEPOIS: Parentes e amigos se reúnem no hospital. Esposa e filhos também. Os médicos notaram uma pequena melhora e acreditaram que Júlio poderia sair do coma. Reunidos ao redor da cama, aguardam a tão esperada hora. Em um determinado momento, Júlio abre os olhos, levanta com rapidez e balbucia sem hesitar, com os olhos bem arregalados:
- Ugh!
Logo em seguida se joga rapidamente da cama, fecha os olhos e morre.

Realmente, nem todo mundo foi feito para ser feliz.